Baderna

      Marietta Baderna foi uma bailarina revolucionária que habitou terras brasileiras na segunda metade do século XIX. Amante dos ritmos afro-brasileiros, Maria Baderna, como era enaltecida pela imprensa e almejada pela burguesia carioca, caminhava para o auge de sua carreira como dançarina de primeira linha, de Municipais, acostumada a grandes e nobres platéias, quando decidiu que se misturaria cada dia mais com o povo e com as festas que ocorriam do lado de fora do teatro, nas ruelas e becos da cidade. Isto para todos fora um baque e sua fama de transgressora que trazia em suas apresentações o balé clássico junto a umbigadas, cachucas e o lundum, se acamou nos alvoroços que eram causados quando Baderna era expulsa do palco. Ela se juntava aos baderneiros, seus fiéis amigos que literalmente faziam a muvuca oportuna que não deixava quase ninguém dormir. Dai surgiu o termo “baderna” resignado a uma impressão negativa de bagunça, popularizada como nunca no período em que vigorou no Brasil a ditadura militar do golpe de 1964 e que ganha neste filme um novo olhar e uma nova forma de significação.

     

      Inspirado na história da grande bailarina, Baderna nasceu como um documentário sobre uma cidade fictícia que no filme de fato existe, e persiste, desde a fundação no ano seguinte a morte de sua musa inspiradora, em 1871, até os dias atuais. Baderna é um estudo imagético e sonoro sobre a possibilidade de um lugar endêmico, uma cidade, um município, um lugarejo, um povoado, que traz em si uma gama inacreditável de resistência, seja ela de cultura popular, de costumes sociais, de entidades religiosas, de profanidades boêmias ou de um contato contemporâneo com a natureza. Nem tudo é verdade neste filme, mas muita coisa é verdadeira e colocada com a mínima intervenção dos realizadores.

       A Chapada Diamantina foi o lugar escolhido para ambientar o universo de Baderna. Lençois, principal cidade do parque nacional, foi a base da pesquisa e principal locação das filmagens que ocorreram entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016. Foi em Lençóis e suas ruas de paralelepípedo, suas casas coloniais tombadas, seu entorno envolto em trilhas, cachoeiras, poços e garimpos de extração de diamantes desativados, que o jornalista Bruno Cirillo, produtor e pesquisador do filme, viveu por dois anos antes de escrever setenta páginas de um dossiê sobre suas impressões da vida na Chapada Diamantina. Entregue nas mãos do diretor e diretor de fotografia Bruno Graziano, com sua vontade de filmar um documentário ficcional dentro da estética formalista - estética x narrativa = forma - começou a ser formado um guia de filmagem que traria para a obra um entendimento universal e atemporal. O filme se passaria em um dia dividido entre quatro capítulos narrativos - manhã, tarde, noite e madrugada - e seria narrado por um badernista que teria vivido com Maria Baderna, com a marcação das informações dadas como memórias e reflexões de alguém que conheceu a história da cidade desde a sua fundação e que acompanha junto ao espectador a passagem de um dia. Um espírito narrador, em resumo.

       Para finalizar, haveria um fio narrativo ficcional, um herói em busca de sua jornada que foi materializado na escolha de Obaluaê, orixá conhecido das religiões de matriz africana, e que segundo a mitologia é senhor da terra e tem o poder divino de trazer a doença ou cura para o mundo material. A trajetória do personagem Obaluaê, que foi baseado em contos legítimos do Candomblé e do Jare, recebeu liberdade poética para adentrar o mundano do século XXI num dia de juízo final. Obaluaê sai de seu isolamento na mata para chegar em Baderna na Festa de Nosso Senhor dos Passos, santo negro católico e protetor dos garimpeiros, não sem antes passar pelo lixão que envergonha a cidade logo em sua entrada e finalizar seu rumo no mar fictício do litoral de Baderna (nada menos que a praia de Ipanema, no Rio de Janeiro) em busca de Iemanjá.

      A tragédia vivida por Obaluaê é contrastada com entrevistas como a de Dona Edite, que é neta de índios e conta que seus primos nativos eram “pegados de cachorro”, maneira como eram caçados pelos brancos e negros antigos. Dmitrij segue a doutrina da cultura racional e filosofa sobre uma era energética da humanidade que está por vir. Quatro amigas argentinas de férias curtem as cachoeiras e narram a noite anterior na casa de um místico dionisíaco. Mestre Cascudo conta um caso de capoeira no banco de areia. Manuel apresenta suas terras e suas percepções sobre a vida no campo. Roy Funch, biólogo americano e principal responsável pela criação do Parque Nacional da Chapada Diamantina, expõe sua teoria sobre sociedades de cupins que só existem por aquelas terras. Pai Gil de Ogum fala um pouco sobre a prática do Jare. Getúlio comenta sobre poderes de cura medicinal da floresta e também sobre seu processo de transformação quando chamado a ser um mestre espiritual. Alê Casali põe o palhaço como um artista em estado de graça e Tio decreta sua verdade em relação a certeza que carrega de que é Deus, o único e verdadeiro Deus.

     Expressões culturais nativas da Chapada Diamantina também são protagonistas deste recorte brasileiro, como a respeitada capoeira do Grupo Corda Bamba, o Choro Labuta tocando no meio de um vale, o samba de roda dos Angoleiros da Serra no centro da praça, o Boi Estrela de Igatu que desfila pelas ruas festejando São Sebastião, o Maracatu Diamante e sua percussão incansável noite a dentro, o Festival Ressonar de cultura alternativa seguindo por toda a madrugada, assim como o Jare de Mãe Dinha e a baderna dos espíritos badernistas em homenagem a grande bailarina.

      Tudo, em Baderna, ocorre em vital respeito e busca de entendimento em relação a cultura africana trazida pelos negros escravizados no passado recente dos últimos séculos no Brasil. Tudo, em Baderna, foca em escolhas que se fundem aos costumes locais, mas que são reverberados e sintetizados em boa parte do território do país. Baderna é um grito evolucionário que pretende ser um filme popular, que possa ser exibido em praças públicas, em salas de cinemas de todos os cantos, em qualquer horário na televisão e em qualquer situação possível. Baderna é música baseada no tambor e não na melodia, é inspirado na trilha sonora da mítica e genial Orquestra Afro-brasileira, é um filme do cinema suado, feito de forma coletiva e com envolvimento bruto e corajoso com diversas expressões. É um filme que sabe entrar e sair de qualquer lugar e que respeita a história oral daqueles que não puderam escrever os livros de história, mas que carregam um conhecimento rico e necessário ao nosso entendimento identitário. Baderna é cedo e longe. *

Largou as Botas e Mergulhou no Céu

       "O brasileiro é um eterno feriado”, diz uma das frases mais famosas do dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues. A interpretação desta máxima pode ter várias vertentes, alimentada por conotações positivas como a predisposição às festividades e aos períodos de ócio e de liberdade e também negativas como um frugal sentimento de preguiça e desdenho pela rotina comercial e burocrática da vida. Um sarcasmo, porém, praticamente se institucionalizou diante das falas populares das ruas que já fazem parte da áurea da identidade do povo brasileiro, que é a reflexão de que somos “um feriado entre o natal e o carnaval”, período praticamente sabático no calendário, e único a nós com tamanha intensidade, que vai da festa sagrada católica à mais profana das festas num período de descanso e grande fervor.

       Este período, justamente, foi o cerne inicial da concepção de Largou as Botas e Mergulhou no Céu. O filme começa na véspera de natal e termina na quarta-feira de cinzas. Junto a isso, existia uma vontade palpável de realizar toda a filmagem numa única região que pudesse de certo modo unificar o sentimento em torno de histórias diversas que se juntassem formando um único grito aberto. Foi daí que a decisão pelo nordeste brasileiro se fez concreta. A diversidade de manifestações culturais, de sotaques, de paisagens e de conflitos existente na região nordestina é imensa. E assim foi feita a captação das imagens e sons, em cinco diferentes estados - Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Ceará - em trezes cidades emoldurando um filme com ares variados - sertão, interior, metrópole e praia, intercalados e pareados como se ocorressem juntos, como de fato ocorrem.

        Além disso, houve na fase de argumentação do roteiro um empenho grande em experimentar linguagens que transitassem entre o documentário e a ficção e que pudessem ampliar a percepção narrativa para além das histórias. Documentário clássico de entrevistas, documentário direto, falso-documentário, cine-reportagem, videoclipe experimental, animação, cineteatro, ficção cômica e ficção dramática, tudo isso é visto dentro deste doc-ficção que se inspira na tradicional literatura de cordel para chegar a sua linguagem cinematográfica, ousada e popular, que angaria estudos e também olhares atentos. Emocionar, informar, entreter e questionar, estes quatro verbos foram presentes durante toda a feitura da obra.

      E os temas abordados também se distinguem em suas exemplificações. Foram escritos e premeditados desde a concepção, baseados em pesquisa filmada que virou uma série de vídeos de entrevistas chamada “Tão Longe, Tão Perto”, e que trouxe aos realizadores bagagem intelectual de nomes como o músico Lirinha, o poeta Marcelino Freire, o escritor Luiz Ruffato, a socióloga Isa Grinspum ferraz, o historiador Salloma Salomão e a educadora Renata Meirelles. A partir destas conversas e suas reflexões frescas, surgiu a história do caminhoneiro solitário de Vitória das Conquista que prefere a estrada do que um relacionamento amoroso sério, a visual montagem das manifestações religiosas de diferentes matrizes, da Festa do Bom Jesus dos Navegantes em Aracaju e da a Festa de Iemanjá em Salvador, da mulher pobre que foge com a filha pequena do sertão de Arcoverde (uma releitura livre do clássico “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos), do jumento filósofo da praça de Crato (com texto e narração de Marcelino Freire), da família sertaneja de Buíque que vai pela primeira vez ver o mar em Cabo de Santo Agostinho, do jangadeiro de Miá de Cima que quase não encontra mais peixes no mar, das crianças soteropolitanas que contam como foram suas férias, do folião carnavalesco endiabrado em Recife (o cineasta Cláudio Assis), das cearenses amigas de infância que se reencontram após uma década, e do orador de tudo, um politico eleito em Quixadá que se transforma em bobo da corte (o cineasta Halder Gomes).

        Um baralho de inspirações, um cordel cinematográfico, uma viagem pelo Brasil real e uma antologia nordestina, como bem citou Marcelino Freire após ver o filme na estréia. Cláudio Assis levantou a mão e bradou que Largou as Botas e Mergulhou no Céu é um filme para o futuro, um filme para depois, porque o cinema é onde nunca se foi, onde nunca se esteve, e é necessário ir lá buscar, encontrar esta tela branca onde se faz um novo cinema sempre. Lirinha, depois que assistiu o corte final afim de criar a canção original dos créditos, resolveu reviver o seu Cordel do Fogo Encantado, uma das bandas brasileiras mais emblemáticas e importantes dos últimos tempos. O filme virou até música, faixa 4 do disco Viagem ao Coração do Sol. E o povo, como reage? O povo que tem a oportunidade de assistir o filme fica vidrado, empedrado, sem saber direito de onde entende, mas entende a vibração vinda da projeção. É um barato estranho, que tem na trilha sonora nomes como Tom Zé, Russo Passapusso, Batatinha, Nomade Orquestra e Café Preto. Largou as Botas e Mergulhou no Céu é um filme sobre o brasileiro e consequentemente todos os seus gêneros, raças, deslocamentos e resistências, é um filme do cinema suado, um filme sobre deixar as amarras de lado e abraçar o infinito. *

O Acre Existe

         Há uma forma clara de interpretação em relação ao documentário O Acre Existe que se enxerga na afirmação do título - O Acre Existe - sem interrogação ou exclamação. Uma sentença convicta e séria que é neutralizada de certa forma por um filme curioso e bem humorado, que se preocupa com a beleza das imagens e dos sons orgânicos e das músicas e que deverá ser encarada como uma afirmação positiva e não como uma dúvida sarcástica.

        Este princípio básico coloca o filme numa linhagem muito característica da produção contemporânea, sobretudo aquela iniciada na revolução digital e já pertencente ao processo de documentação histórica que se confunde aos registros amadores. O Acre Existe é uma mistura assumida de um filme de viagem com um documentário de encontros que se mostra ouvinte a todo tipo de personagens possíveis e cabíveis dentro de uma determinada jornada iniciada em dezembro de 2011 e estendida até fevereiro de 2012, passando por dezesseis dos vinte e dois municípios do estado. Ao mesmo tempo que o documentário se preocupa em não tecer verdades absolutas acerca de sua história, de sua cultura e de seu povo, ele busca entregar uma diversidade acreana de rostos e paisagens que é bastante rica e até mesmo estranha ao mais orgulhoso cidadão ou cidadã acreana. Um filme de retratos, em resumo.

        Se a premissa inicial da feitura para os quatro jovens realizadores vindos de uma realidade mais próxima de São Paulo, que era o de ir ao lugar menos conhecido do Brasil, o Acre pareceu um destino natural. Daí nasceu uma segunda premissa que era não programar muito qualquer antecipação em relação ao roteiro e suas possíveis narrativas. As escolhas de registro seriam tangidas conforme a vontade e o interesse sincero, puramente. E uma terceira e fatal premissa, que era a de não permanecer e nem se envolver mais profundamente com nenhum personagem, priorizando o caminho, a viagem, e todas as suas possibilidades a frente. Sendo assim, com a ausência de um protagonista único, foi na montagem que os assuntos foram priorizados e a teia de casos e personalidades foi conduzida afim de construir um documentário moderno, dinâmico e sensorial, cujas percepções variam muito para cada espectador que encara esta viagem fílmica ao extremo oeste amazônico do Brasil.

     A narrativa, que é dividida em blocos temáticos, expõe alguns assuntos chaves da existência do Acre como o legado de Chico Mendes, ambientalista dos mais importantes da história brasileira, nascido e criado em Xapuri e assassinado de forma trágica por fazendeiros da região. Também é destaque a manifestação religiosa do Santo Daime, originária da região de Rio Branco, capital acreana, assim como o cultivo do ayahuasca, chá ritualístico usado por boa parte da população da floresta para buscas espirituais. A herança dos soldados da borracha, das comunidades ribeirinhas, das aldeias indígenas e da luta história que o Acre viveu para pertencer ao território e ao estado brasileiro são temas presentes direta e indiretamente nos depoimentos e nos hábitos daqueles que abriram algo de suas vidas para um recorte cinematográfico.

      O que liga, afinal, a performance de Cícero França e o aniversário de Rosinha com a festa do Jabuti Bumbá, com o ambientalista e guia Nilson Mendes, com Seu Jorge e família que fixaram residência nas margens do Rio Croa, com a sonhadora Rubenária da pacata Santa Rosa dos Purus, com a matriarca Julia Miranda e sua numerosa família de Manoel Urbano, com o viajante solitário Zé Kleuber, com Hushahu, liderança feminina do povo yawanawá do Rio Gregório, em Tarauacá, com o ex-soldado da borracha Raimundo Nonato e Assis Brasil, e seus boleros melancólicos, com Dotor da Borracha, o artista plástico, com Nelson Brasil, o poeta, com Oliver, o funkeiro, com Accioly, o historiador, com Altino Machado, o jornalista, com Miro, o descobridor de cachoeiras, com Gisalda, a professora, com Gê, a comerciante, e com os haitianos refugiados em Brasileia na fronteira com a Bolívia?

      De certo é que a sensação de isolamento e de pertencimento a uma rotina muito própria, distinta aquela conhecida e vivida pelo sul e pelo sudeste do Brasil. A mitologia criada dentro do documentário é uma mitologia nova, formidável, errante e não-oficial. Trata-se de uma busca constante e cíclica, antropológica e independente, que também virou literatura materializada num livro de mesmo nome escrito pelo jornalista Paulo Junior, com duas edições esgotadas.. O Acre passou a existir para os realizadores somente quando o filme ficou pronto e foi exibido em Rio Branco em sessões cheias e recepções acaloradas, onde a troca proposta no início finalmente se concretizou.

     Vale muito destacar a trilha sonora, uma mescla de canções regionais registradas durante a captação com músicas instrumentais originais e incidentais compostas pelo guitarrista João Erbetta, além das animações criadas e compostas pelos estúdios Casa Locomotiva (antigo Estúdio 1+2) e Estúdio Teremim, do desenho de som desenvolvido pelo Estúdio Capitão Foca (antigo Capitão Monga) e do cartaz criado pelo grafiteiro Tiago Tosh. O Acre Existe é um documentário produzido conforme as possibilidades do Cinema Suado, manifesto de realização independente que prioriza as vivências e a liberdade ideológica e de linguagem em relação a feitura de documentá- rios que ajudem de alguma forma ao entendimento do nosso tempo. *